quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Os doze atuais trabalhos de Hércules

Meus queridos discípulos de Cultura Grega, da PUC Minas: Os tempos mudaram na Grécia. Os gloriosos tempos do Olimpo já se foram. Estão gravados nas glórias da História, das literaturas em várias latitudes do ocidente.
Gostaria que vocês, como exercício de Cultura Grega, listassem os 12 tradicionais trabalhos de Héracles (Hércules). Seu nome deriva de HERA (a esposa de Zeus) + KLÊS (que significa GLÓRIA). O filho de Zeus e Alcmena é, ao vencer os desafios, a Glória de Hera. Para quem aceitar a tarefa, boa pesquisa. Prof.Ismar Dias de Matos (p.ismar@pucminas.br) Obs: A charge que ilustra o texto é de autoria de BENETT, e está publicada na folha de São Paulo de hoje, 15 de fevereiro de 2012.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Ser ou ter autoridade?

O cenário do Evangelho do 4º domingo do Tempo Comum (Mc 1, 21-18) é Cafarnaum, “às margens do mar da Galileia, nos confins de Zabulon e Neftali” (Mt 4, 13-14), para onde Jesus se mudara (Mt 9,1). Cafarnaum, em hebraico Kephar Nachûm, é Aldeia da Consolação, ambiente onde aconteceram muitos episódios de destaque (Mt 8,5; Mc 2, 1-3; Lc 7,1-10; Jo 4, 46-54). Foi ali que Jesus chamou os seus primeiros discípulos (Mc 1,16-20), como nos disse o Evangelho do domingo passado, 22 de janeiro. O Evangelho nos apresenta as pessoas admiradas com a autoridade de Jesus (Mc 1, 22;Lc 4, 32): viam que Ele era diferente dos escribas e fariseus. Estes possuíam poder, algo dado por outro ser humano; Jesus era autoridade, qualidade que existe sem a necessidade de um poder humano-social. Autoridade e poder não são a mesma coisa. Autoridade (Exousía, na lingua grega) significa algo que vem de dentro, que procede da essência, da substância mais íntima. É algo que dificilmente se adquire, mas algo com o qual a pessoa já nasce. Uma pessoa pode ter poder e não ter autoridade; outra pode ter autoridade sem ter poder. Jesus não tinha poder, mas autoridade: ele não pertencia à casta sacerdotal, não era escriba nem fariseu; era um carpinteiro, mas sua autoridade (toqep, em hebraico) excedia em altura, largura e profundidade a de todos os outros profetas e pregadores. A força da autoridade também passa pelo caminho do coração e do afeto, da conquista amorosa. A autoridade nada tem de arrogância ou de autoritarismo, que estão próximos do abuso de poder. A verdadeira autoridade nunca abusa de sua força, pois um (im) possível abuso seria a negação de sua essência (Ousía). Na primeira leitura (Dt 18, 15-20) há também a questão da autoridade: Moisés diz ao povo que Deus fará surgir no meio deles um outro profeta semelhante ao próprio Moisés, que não mais conduzirá os hebreus e não entrará na Terra Prometida. A respeito desse profeta, Deus afirma: “Porei em sua boca as minhas palavras e ele lhes comunicará tudo o que eu lhe mandar”( Dt 18,18). Esse substituto de Moisés será Josué, cujo nome “coincidentemente” possui o mesmo significado do nome de Jesus: “Javé é o salvador”. Jesus é a Verdade (Jo 14,6), é a Fonte de toda autoridade, que é o próprio Deus (Mt 19, 11). Portanto, quando dizemos no terceiro parágrafo que a etimologia de autoridade é Ex-ousia, a procedência indicada pelo prefixo “ex” nos remete a Deus, princípio de todas as coisas. Ele é a Substância (Ousía) que impregna todos aqueles e aquelas que guiam os irmãos e irmãs em busca de um mundo melhor, mais justo, fraterno e solidário. Pe. Ismar Dias de Matos, sacerdote da Diocese de Guanhães-MG. E-mail: p.ismar@pucminas.br

domingo, 8 de janeiro de 2012

A luz que vem do alto

A Escritura Sagrada nos diz em vários lugares que Deus é luz, e diz também que Ele é o Pai das Luzes (Tg 1,17); por isso a grande manifestação do Menino-Deus ao mundo não poderia ser diferente: mostrou-Se primeiramente na luz de uma estrela, a Estrela de Belém (Mt 2, 2.7.10). A festa da Epifania é isto: a LUZ que vem do ALTO, ou seja, a Luz de Deus brilhando sobre nós. Cientistas, como Keppler, disseram que naquele tempo (ano 747 da fundação de Roma) houve uma conjunção dos planetas Saturno, Júpiter e Marte, o que explicaria o brilho avistado; Orígenes dizia que o brilho visto nos céus fora o de um grande cometa. Contudo, isso não importa. Natural ou teológica, importa-nos o sentido da Luz. O evangelista Mateus fala que uns Magos do Oriente viram a luz da Estrela e reconheceram tratar-se de uma manifestação do Messias (Nm 24,17). A tradição, desde os séculos VII-VIII, diz os nomes dos Magos e fala que eram astrólogos, astrônomos e também eram reis: Belquior, Baltasar e Gaspar, respectivamente reis da Pérsia, da Arábia, e da Índia. Ofereceram ouro, incenso e mirra ao Deus-Menino, iniciando assim a troca de presentes que fazemos no Natal. O salmo 72 (71), vers. 11, já dizia que todos os reis da terra iriam adorar o Messias (ver também Isaías, 49,7). Ele é o soberano de todos os poderes. Os presentes são provas disso: o Ouro representa a realeza; o Incenso demonstra que o Menino é Sacerdote; a Mirra diz que Ele é Profeta, e sinaliza também a sua morte. Embora a Luz esteja nos envolvendo o tempo todo, nem todos conseguimos vê-La. João veio dar testemunho da Luz, mas os homens preferiram as trevas (Jo 3, 19). Muitas outras luzes e interesses nos cegam para que não vejamos a verdadeira LUZ. Ouvi o testemunho de um ex-trabalhador das minas de Nova Lima, que um dia chegou bêbado ao trabalho sem o equipamento de proteção: uma faísca de rocha o deixou cego. Anos depois, ele dizia: “quando enxergava, eu era cego; depois que fiquei cego é que passei a enxergar”. O evangelho diz que o rei Herodes não viu a luz da Estrela. E todos os que se comportam como Herodes não podem ver a LUZ, pois já estão repletos de si mesmos, não admitem que algo de bom exista fora deles. O egoísmo os deixa cegos. Jesus curou vários cegos (Mt 11,5; Lc 7,22). Um deles, conhecido como Cego de Jericó, chegou perto de Jesus e pediu-Lhe: “Senhor, que eu veja”; ou noutra tradução: “Senhor, eu quero ver de novo” (Mc 10,51). Diante de um desejo sincero assim a Epifania acontecerá, com certeza. Que Deus Se manifeste em sua vida de modo pleno durante o ano de 2012, para que seja uma Epifania constante; que a Sua luz ilumine os seus projetos e os seus caminhos, sempre. (Ismar Dias de Matos, professor de filosofia e cultura religiosa na PUC Minas: p.ismar@pucminas.br)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Vamos a Belém: lugar do pão e da paz!

O evangelho do dia 1º de janeiro de 2012 (Lc 2, 16-21), Solenidade da Santa Mãe de Deus e Dia Mundial da Paz, nos diz que “os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém nascido deitado na manjedoura”. Sair às pressas é sinal de que algo forte como a alegria e a graça de Deus moviam os caminhantes. Maria, logo após o anúncio de que seria a mãe do Filho de Deus, também saiu às pressas e subiu as montanhas para encontrar-se com sua prima Isabel (Lc 1,39). Dom Antônio Felippe da Cunha, primeiro bispo da diocese de Guanhães, inspirou-se nesse versículo para exercer o episcopado – “Festinans cum Maria” – “com a presteza de Maria”. Os pastores foram a Belém(Beit –Lehem) que, literalmente, significa “Casa do Pão”. Foram os primeiros a buscar a força do Pão de Deus que desce do céu para dar vida ao mundo (Jo 6,33). Aquele Menino que os pastores contemplaram, ao se tornar adulto, disse de si mesmo: ““Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim nunca mais terá fome, e o que crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6, 35). O profeta Miquéias afirmou que de Belém deveria nascer o condutor, o pastor maior de Israel (cf. Mq 5,1). E o Menino nasceu na “manjedoura”, na cocheira, no lugar do gado comer. Nasceu como alimento. Assim os pastores o viram, juntamente com Maria e José (Lc.2, 16). Ao menino foi dado o nome Jesus (YeSHuaH – Lc 2, 21), que significa “Javé salva” ou simplesmente “Salvador” (Lc 1, 47.69; Lc 2, 11.30). Quando cantamos liturgicamente o “Hosana” (HoSHeaH NaH) estamos pedindo “salvai-nos (SHeaH), por favor (NaH), ó Filho de Davi”. Salvai-nos da fome de Pão, da fome da Palavra! Pedimos, enfim, a completude, o que nos faz viver: a paz (SHaLoM). (Ismar Dias de Matos)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Dom Joaquim Silvério de Souza, primeiro arcebispo de Diamantina

Dia 20 de julho de 2009 comemoramos o sesquicentenário de nascimento de Dom Joaquim Silvério de Souza, patrono da cadeira 75 no Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Dom Joaquim nasceu na Fazenda das Peneiras, perto de São Miguel do Piracicaba, hoje Rio Piracicaba, comarca de Santa Bárbara, em 20 de julho de 1859, filho de Antônio de Souza Monteiro e de Ana Felícia Policena de Magalhães. Esse ilustre mineiro nasceu no ano em que morreu o Santo Cura d’Ars, São João Maria Vianney, patrono dos párocos, cujo centenário de falecimento celebramos dia 04 de agosto de 2009. Seminarista e padre Aos 13 anos ingressou no Seminário de Mariana, sob a direção dos padres da Congregação da Missão, conhecidos como Lazaristas. Depois foi para o Seminário Maior do Caraça. Em 1881, quando o Imperador Dom Pedro II visitou aquele famoso educandário, o jovem estudante de Teologia Joaquim Silvério foi escolhido para falar, em nome do corpo discente, ao ilustre visitante. Com 23 anos incompletos foi ordenado presbítero em 04 de março de 1882, por Dom Antônio Correia de Sá e Benevides, bispo de Mariana. Após a ordenação presbiteral, além de ser professor de Latim, Português e História no Seminário do Caraça, foi Vigário de Inficcionado, atual Santa Rita Durão, e Capelão do Recolhimento das Freiras de Macaúbas. Além destes encargos, não deixou de cultivar as letras, colaborando em jornais católicos, como “O Apóstolo” e “Minas Gerais”. Escreveu, ainda como padre, os livros Sítios e personagens (1ª edição em 1896; 2ª ed. 1930) e O lar católico (1900). O primeiro biógrafo de Dom Joaquim, o então seminarista Celso de Carvalho, enumera e comenta, além das já citadas, outras obras que escritas por Dom Joaquim: Aos meus seminaristas, Vida de Dom Silvério Gomes Pimenta, Finezas de mãe e obrigações de filho, Abreviado despertador dos deveres sacerdotais, Educação na escola, e 16 Cartas Pastorais, destacando-se a primeira delas, que foi a Pastoral de saudação cujo título é “Do apostolado católico” (1905), a “Pastoral sobre o Jubileu Constantiniano”, em 1913, e “Do ensino e exemplo de São Francisco de Sales”, 1923 (Cf. CARVALHO, Celso de. Dom Joaquim: primeiro arcebispo de Diamantina, Petrópolis: Ed. Vozes, 1935, p. 117-161). Bispo, escritor e pastor Em 16 de janeiro de 1902, com 42 anos, foi eleito bispo titular de Bagis e coadjutor de Dom João Antônio dos Santos, primeiro bispo de Diamantina, em Minas Gerais. Em 02 de fevereiro foi sagrado bispo por Dom Silvério Gomes Pimenta, que teve como consagrantes Dom João Batista Correia Nery, Bispo de Pouso Alegre, e Dom Fernando de Souza Monteiro, Bispo do Espírito Santo. Em 05 de maio de 1905 Dom Joaquim assumiu o pastoreio da Diocese de Diamantina. Segundo Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta (1890-1982), que fora seu bispo auxiliar, as atividades episcopais de Dom Joaquim pareciam seguir uma trilogia capital: Clero, Imprensa e Educação, como se pode ver. Fundou o semanário A ESTRELA POLAR em 01/01/1903, para ser o informativo da Diocese. Noticioso e doutrinal, mas também literário, o jornal tinha como lema: ITER PRAEBENS TUTUM (mostrando o caminho certo), e estava sob os cuidados do Cônego Severiano de Campos Rocha. O jornal circula até os dias de hoje. Fundou a Associação de São José, para manter a obra das vocações sacerdotais; Em 1912 fundou o “Boletim Eclesiástico”, órgão da Cúria diocesana, destinado a ser o traço de união e um instrutor do clero. Em 1927 abençoou a recém-fundada “A Messe”, revista da Obra das Vocações Sacerdotais. Criou escolas normais em Itambacuri, Conceição do Mato Dentro, Curvelo e Diamantina. Criou em todas as paróquias da Arquidiocese a Confraria da Doutrina Cristã. (Cf. INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE MINAS GERAIS, Revista, v. VI: Centenário do nascimento de Dom Joaquim Silvério de Souza, p. 131-141) Grande conhecedor dos escritos de Dom Joaquim, o saudoso arcebispo Dom José Pedro Costa viu em seus escritos uma segunda trilogia: EUCARISTIA, NOSSA SENHORA e o PAPA (Cf. COSTA, Dom José Pedro. Vanguardeiros: homenagem a Dom Joaquim Silvério de Souza no 60º aniversário de sua morte a 30 de agosto de 1933. Diamantina: Gráfica EPIL, 1993, p. 35). Em 29 de janeiro de 1909 Dom Joaquim foi nomeado Arcebispo Titular de Axun e coadjutor da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde estava o Cardeal Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti (1850-1930), chamado de o “Cardeal da América Latina”. Alegando motivos particulares e questões de saúde, Dom Joaquim continuou em Diamantina. Aos 57 anos, em 28 de junho de 1917, tornou-se Arcebispo de Diamantina e recebeu o pálio arquiepiscopal em 18/10/1919 das mãos de Dom Silvério Gomes Pimenta. Dom Joaquim foi membro do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, da Sociedade Internacional de História, de Paris, e fundador da centenária Academia Mineira de Letras, e ocupava a cadeira 23, cujo patrono é Joaquim Felício dos Santos, jurista diamantinense. Dom Joaquim é patrono da cadeira 39 da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, fundada em 15/11/1962, em Uberaba, em uma homenagem do acadêmico Dom José Pedro Costa, primeiro ocupante da Cadeira. Em 1932 o então Núncio Apostólico no Brasil, Dom Bento Aloysio Masella, foi a Diamantina levar a Dom Joaquim a condecoração que lhe fora dada por S.S o Papa Pio XI: a de Conde Romano e assistente ao Sólio Pontifício. (Cf. CARVALHO, o.c, p. 70-71). Outras importantes homenagens ao grande arcebispo: o povo da antiga cidade mineira de São Domingos do Rio do Peixe a renomeou de Dom Joaquim; seu nome foi dado a escolas, ruas e praças e, em 1959, no centenário de nascimento, o presidente JK mandou cunhar um selo dos Correios com a sua efígie. O testamento espiritual de Dom Joaquim Concluo estas páginas apresentando o testamento de Dom Joaquim, publicado na primeira página do jornal A Estrela Polar, edição de 10/09/1933, Ano XXXI, nº 7: “Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém. Por este instrumento, por mim escrito, datado e assinado, para valer como meu condicilo, de acordo com os artigos 1651 e 1655 do Código Civil Brasileiro, eu, Joaquim Silvério de Souza, primeiro Arcebispo da Arquidiocese de Diamantina, filho do Capitão Antônio de Souza Monteiro e Dona Anna Felícia Policena de Magalhães, estando em pleno gozo de minhas faculdades mentais, faço esta declaração do que se deve cumprir após meu falecimento e para que se saiba a verdade quanto aos bens por mim havidos ou como tais considerados, ou sob minha administração. Como é meu dever, agradeço a Deus todas as graças espirituais e temporais a mim concedidas e humildemente lhe suplico perdão de todos os pecados, infidelidades à graça, negligências, omissões, de que me tornei culpado durante o curso da vida, e de modo particular no exercício do ministério sacerdotal e pastoral. No propósito de exalar o último alento firme na fé de tudo quanto ensina a Santa Igreja Católica, em cujo seio tenho a felicidade de viver e da qual, apesar de indigno, tenho a honra de ser ministro, entrego minha alma a Deus pelas mãos de Maria Imaculada, cujo especial amparo, assim como o patrocínio de seu castíssimo esposo, São José, a proteção de São Joaquim, de Santo Antônio, principal Patrono da Arquidiocese, do meu Anjo Custódio, invoco para os meus derradeiros momentos de vida na terra. Não só aos que mais de perto me ajudaram a levar o peso da administração do Arcebispado, mas a todos os sacerdotes e fiéis sob minha jurisdição, os agradecimentos a que têm direito pelos serviços que prestaram e consolações que deram à minha alma, e a quem de qualquer modo contristei os sentimentos do meu pesar e o pedido de sua indulgência para comigo. Desejo que as Missas a que tenho direito e as que deixo recomendadas sejam celebradas quanto antes. Dos sacerdotes e fiéis deste Arcebispado e das Dioceses que outrora formaram o Bispado de Diamantina, e são hoje sufragâneas desta Igreja Metropolitana, espero a caridade de suas intercessões diante de Deus em meu favor. Na campa da sepultura que recolher meus ossos, desejo, caso seja possível, se leiam, como contínua invocação minha, as palavras: SPES MEA, DOMINE, MISERICORDIA TUA. Declaro que de meu não possuo coisa alguma. A meus irmãos ou a filhos seus dei, já há anos, por instrumento legal, e observada também a legislação canônica, alguns alqueires de terra que na Freguesia de São Miguel do Piracicaba (atual Vila Rio Piracicaba) constituíram por doação de meus pais, patrimônio para minha ordenação, e no mesmo fim dispus da pequena herança destes havida. Como consta de certidão oficial existente na Secretaria do Arcebispado, dei à Mitra Arquidiocesana os livros que me pertenciam e para ela foram adquiridos os posteriores à doação. A ela pertencem todos os paramentos, imagens, alfaias, sacros utensílios, objetos de qualquer natureza existentes no Palácio e que não pertençam a outras pessoas. Simples administrador dos bens da Mitra, nada para mim reservei ainda do que me podia pertencer segundo as leis canônicas, mas tudo, tirado o necessário para minha manutenção, empreguei para o bem da Arquidiocese, principalmente na educação da juventude e amparo das vocações sacerdotais. Tendo em vida feito o que pude aos que me são mais próximos em sangue, como declarado ficou acima, e não podendo lhes deixar bens temporais, que não possuo, peço que vivam sempre como bons filhos da Igreja e mantenham honrado o nosso nome de família. Aos Exmos. Srs. Dom Antônio José dos Santos, que me tem feito a caridade de sua valiosa cooperação durante anos e, na sua falta, a Monsenhor Levi Pires de Oliveira, e, no impedimento deste, a Monsenhor Gabriel Amador dos Santos ou a seu sucessor na Secretaria do Arcebispado, aos quais todos renovo minha eterna gratidão, rogo o favor de fazer que se execute, de acordo com a legislação do País, esta minha disposição ou declaração de última vontade. Rogo, enfim, a Deus que me conceda a graça de servi-Lo menos imperfeitamente do que até hoje, durante os dias que por sua infinita misericórdia ainda viver sobre a terra. Diamantina, 09 de fevereiro de 1929. Dom Joaquim, Arcebispo de Diamantina”. O santo e sábio arcebispo faleceu no dia 30 de agosto de 1933, em Diamantina. Texto do Prof. Pe. Ismar Dias de Matos, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, cadeira 75. Professor de Filosofia e Cultura Religiosa na PUC Minas. Fontes: CARVALHO, Celso de. Dom Joaquim: primeiro arcebispo de Diamantina. Petrópolis: Ed. Vozes, 1935, p. 117-161 COSTA, Dom José Pedro. Vanguardeiros: homenagem a Dom Joaquim Silvério de Souza no 60º aniversário de sua morte a 30 de agosto de 1933. Diamantina: Gráfica EPIL, 1993, p. 35 INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE MINAS GERAIS, Revista, v. VI: Centenário do nascimento de Dom Joaquim Silvério de Souza, p. 131-141 Jornal “A Estrela Polar”, edição de 10/09/1933, Ano XXXI, nº 7

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Perguntas vitais


Diga “xis”, vamos, sorria!
Cadê a felicidade?!
Sorrir na fotografia
Pode não ser de verdade!

Ao ver a fotografia
Da família reunida
Me invade u’a nostalgia:
Aonde foi tanta vida?!

Estou sozinho na foto,
Os outros, todos, cadê?
É só agora que noto
Que eu também vou morrer.

Há outra vida além desta?
A vida, enfim, continua?
O céu é mesmo uma festa
Pra minha vida e pra tua?

Ismar Dias de Matos, sacerdote diocesano, professor de filosofia e cultura religiosa na PUC Minas: p.ismar@pucminas.br

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

URGÊNCIA DE NOVAS MISSÕES

Tempos atrás, quando se ouvia falar em Missões, vinham logo à mente as figuras de heróicos missionários e pregadores que se deslocavam para terras distantes, sobretudo onde não havia a presença do cristianismo ou esta era insignificante. Eram as missões que, cumprindo o mandato de Jesus (Mt 28,19-20), se direcionavam aos pagãos, aos gentios: missões ad gentes. Com mais de dois mil anos de missões, as religiões não cristãs abrangem ainda um total 67% da população mundial.
No século passado, o concílio ecumênico Vaticano II (Roma, 1965), as conferências episcopais de Medellín (1968) e de Puebla (1979) perceberam que, embora a missão ad gentes ainda esteja longe de completar sua tarefa, os próprios cristãos passavam por um “esfriamento” da fé e já não demonstravam, como nos primeiros tempos, a força transformadora do evangelho. Na verdade, é necessária uma nova missão, chamada de “nova evangelização” pelo papa João Paulo II, em seu discurso aos bispos latino-americanos, na capital do Haiti, em 09/03/1983: “Nova no seu ardor, nos seus métodos, na sua expressão”; missões para dentro das próprias dioceses e paróquias: missões ad intra.
Neste mês das missões, lembremo-nos que a missão da Igreja, e de cada cristão que assume o mandato de Jesus é evangelizar. Essa é a nossa contínua tarefa. O evangelizador-missionário não tira férias, pois onde ele se encontra, ali ele é missionário.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, reunida em Aparecida-SP, em maio passado, assim resumiu a tarefa primordial da Igreja: “Evangelizar, a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária e profética, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida, rumo ao Reino definitivo” (CNBB, Doc. 94, 2011).

Ismar Dias de Matos, sacerdote diocesano, professor de filosofia e cultura religiosa da PUC Minas.